sexta-feira, 9 de novembro de 2007

POESIA

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

E os que leêm o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só as que ele não tem.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

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