Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente
E os que leêm o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só as que ele não tem.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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